TRAVEL BY WIRE


Vocês não fazem ideia dos problemas e provações que tivemos de enfrentar antes de aperfeiçoarmos o radiotransportador, que na verdade ainda não está absolutamente perfeito. A grande dificuldade, tal como na televisão trinta anos antes, foi a de melhorar a definição, e passámos quase cinco anos a tratar desse pequeno problema. Como devem ter visto no Museu da Ciência, o primeiro objecto que transmitimos foi um cubo de madeira, que foi reconstruído perfeitamente, só que em vez de ser um bloco sólido era constituído por milhões de pequenas esferas. Na verdade parecia uma edição sólida de uma das primeiras imagens de televisão, porque em vez de lidar com o objecto molécula por molécula, ou melhor ainda electrão por electrão, os nossos sistemas de exploração ocupavam-se de pequenos fragmentos de cada vez. Para algumas coisas isso não importava, mas se quiséssemos transmitir objectos de arte, e muito mais seres humanos, teríamos de melhorar consideravelmente o processo. Conseguimos isso usando os sistemas de exploração pelos raios-delta a toda a volta do objecto, acima, abaixo, à direita, `esquerda, à frente e atrás. Era um jogo adorável sincronizar os seis. Posso dizer-lhes isso, mas foi conseguido descobrirmos que os elementos transmitidos eram de tamanho ultramicroscópico, o que era muito bom para a maior parte dos fins. Depois, quando eles não estavam a olhar, agarramos numa cobaia da gente da biologia do andar 37, e enviamo-la pelo aparelho. Chegou ao seu destino em excelentes condições, excepto o facto de estar morta. Portanto devolvemo-la ao seu proprietário com um cortes pedido de autopsia. A principio eles ficaram um pouco zangados, dizendo que a infeliz criatura tinha sido inoculada com os unidos espécimes de certos germes que tinham passado meses a criar num frasco. Na verdade estavam tão aborrecidos que se negaram, sem rodeios, a satisfazer o nosso pedido.


Essa insubordinação por parte de simples biólogos era, de resto, deplorável, e prontamente geramos no laboratório deles um campo de alta frequência que lhes gerou a todos febre durante alguns minutos. Os resultados da autopsia surgiram em meia hora e o veredicto foi o de que a criatura estava em perfeitas condições mas morrera de choque, com uma indicação de que se quiséssemos tentar de novo a experiência devíamos vendar as nossas vitimas. Ficamos também a saber que uma fechadura de segredo fora instalada no andar 37 para o proteger das depredações de mecânicos cleptómanos que deviam estar a lavar carros numa garagem. Não podíamos deixar isso em branco, de modo que examinámos imediatamente a fechadura aos raios X e com completa consternação deles dissemos-lhes qual era a palavra de código.


Isto é o melhor do nosso tipo de trabalho, pode-se sempre fazer o que se quer com os outros tipos. Os químicos no andar seguinte eram os nossos unidos rivais sérios, mas em geral nós ficávamos por cima. Sim, recordo-me de quando eles despejaram um vil material orgânico no nosso laboratório, através de um buraco no tecto. Tivemos de trabalhar com respiradores durante um mês, mas vingamo-nos depois. Todas as noites, depois de o pessoal partir, costumávamos enviar uma dose de cósmicos suaves para o laboratório, e estragávamos todos os seus belos precipitados, até que um fim de dia o velho Professor Hudson se deixou ficar e quase o matamos. Mas voltemos à minha historia...


Obtivemos outra cobaia, cloroformizamo-la e enviamo-la através do emissor. Com nossa grande delicia, ela voltou a si. Mandamo-la matar de imediato e embalsamamo-la para que ficasse para a posteridade. Podemos vê-la no museu com o resto dos aparelhos.
Mas se quiséssemos iniciar um serviço de passageiros, isso nunca seria bastante - seria demasiado semelhante a uma operação para agradar à maior parte das pessoas. No entanto, reduzindo o tempo de transmissão a dez milésimos de segundo, e portanto reduzindo o choque, conseguimos enviar outra cobaia em completa posse das suas faculdades. Essa também foi empalhada.


Chegara sem duvida o momento para que um de nós tentasse ensaiar o aparelho mas quando compreendemos que perda seria para a humanidade se alguma coisa não corresse bem, encontramos uma vitima adequada na pessoa do Professor Kingston, que ensina grego ou qualquer coisa disparatada no andar 197. Atraimo-lo ao emissor com um exemplar de Homero, ligamos o campo, e pelo barulho no receptor soubemos que ele chegara ao seu destino em segurança e na posse absoluta das suas faculdades, tal como elas eram. Teríamos gostado de que ele fosse também empalhado, mas não foi possível.


Depois disso fomos em turnos, verificamos que aquilo era bastante indolor e decidimos por o dispositivo no mercado. Espero que se recordem da excitação que houve quando demonstramos pela primeira vez o nosso pequeno brinquedo à Imprensa. Como era de esperar tivemos um trabalhão para os convencer de que não era uma fraude, e eles não acreditaram verdadeiramente na coisa até terem sido também transportados. No entanto tivemos de por os pontos nos ii a Lorde Rosscastle, que teria rebentado com os fusíveis mesmo se o tivéssemos podido por no transmissor.


Esta demonstração deu-nos tanta publicidade que não tivemos problema algum em formar uma companhia. Demos um adeus relutante à Fundação para a Investigação, dissemos aos restantes cientistas que talvez um dia nós lhes acendêssemos brasas nos miolos ao enviar-lhes uns poucos milhões, e começamos a desenhar os nossos primeiros emissores e receptores comerciais.


O primeiro serviço foi inaugurado em 10 de Maio de 1962. A cerimonia ocorreu em Londres, no terminal de transmissão, ainda que no receptor de Paris houvesse enormes multidões à espera de ver os primeiros passageiros chegarem, e provavelmente esperando que não chegassem. Entre aclamações dos milhares de assistentes, o Primeiro-Ministro carregou num botão (que não estava ligado a coisa alguma), o engenheiro-chefe moveu uma alavanca (que estava) e uma grande "Union Jack" desapareceu da vista e apareceu de novo em Paris, com grande aborrecimento de alguns patriotas franceses.


Depois disso, começaram a passar pessoas a um ritmo que deixou impotentes os agentes da alfândega. O serviço foi um grande e instantâneo sucesso, porque nós somente cobrávamos $2 por pessoa. Isto era considerado por nós como muito moderado, porque a electricidade que usávamos custava nada menos de um centésimo de dinheiro.


Não tardou que tivéssemos serviços para todas as grandes cidades da Europa, por cabo, e não por radio. Um sistema por fio era mais seguro, ainda que fosse terrivelmente difícil instalar cabos poliaxiais, a um custo de $500 por milha, sob o Canal. Depois, em cooperação com os Correios, começamos a instalar serviços internos, entre as grandes cidades. Devem lembrar-se dos nossos "slogans" "Viaje por Telefone" e "É Mais Rápido por Fio", que se ouviam por toda a parte em 1963. Não tardou que praticamente toda a gente usasse os nossos circuitos e transmitíssemos milhares de toneladas de mercadorias por dia.


Naturalmente, houve acidentes, mas podemos notar que fizemos o que nenhum Ministro dos Transportes tinha alguma vez feito, reduzindo os acidentes rodoviários a uns meros dez mil por ano. Perdemos um cliente em seis milhões, o que era muito bom mesmo para começar, embora a nossa média actual seja ainda melhor. Alguns dos azares que ocorreram foram de facto muito peculiares, e na verdade houve até alguns casos que ainda não explicamos aos dependentes, ou mesmo às companhias de seguros.


Uma queixa comum era as ligações à terra ao longo da linha. Quando isso ocorria, o nosso infortunado passageiro era simplesmente dissipado em nada. Suponho que as suas moléculas eram distribuídas mais ou menos igualmente por toda a Terra. Recordo-me de um acidente particularmente horrível quando o aparelho falhou no meio de uma transmissão. Podem calcular o resultado... Talvez ainda pior era o que acontecia quando duas linhas se cruzavam e as correntes se misturavam.


De resto, nem todos os acidentes eram tão maus como esses. Por vezes, devido a uma alta resistência no circuito, um passageiro podia perder uma boa parte do peso no trajecto, o que geralmente nos custava cerca de $1000 e refeições gratuitas bastantes para restaurar o "enbonpoint" perdido. Por sorte, não tardamos a poder ganhar dinheiro com a coisa, porque as pessoas gordas apareciam para ser reduzidas a dimensões convenientes. Fizemos um aparelho especial que transmitia solteironas maciças através de bobinas de resistência e as reuníamos onde tinham principiado, menos a causa do problema. "Tão rápido, minha querida, e absolutamente sem dor! Tenho a certeza de que eles te podiam tirar esses 70 Kilos a mais num abrir e fechar de olhos! Ou são 90?"


Tivemos também muitos problemas por causa das interferências e da indução. Compreendes, o nosso aparelho captava várias perturbações eléctricas e sobrepunha-as ao objecto que estava a ser transmitido. Em consequência, muitas pessoas saíram sem se parecerem com nada existente na Terra e muito menos em Marte ou Vénus. Em geral podiam ser consertados pelos cirurgiões plásticos, mas alguns dos produtos tinham de ser vistos para serem acreditados.


Afortunadamente, essas dificuldades tem sido largamente ultrapassadas agora que usamos microfeixes como portadores, ainda que de vez em quando continuem a ocorrer acidentes. Espero que se recordem do grande processo legal que tivemos no ano passado com Lita Cordova, a estrela de televisão, que exigiu uma indemnização de $1,000,000 por alegada perda de beleza. Afirmou que um dos seus olhos se movera durante uma transmissão, mas eu não consegui ver qualquer diferença nem o júri, que teve bastante oportunidade. Ela teve um ataque de histerismo no tribunal quando o nosso Electricista-Chefe foi testemunhar e disse sem rodeios, com alarme dos advogados de ambas as partes, que se alguma coisa tivesse de facto decorrido mal durante a transmissão, Miss Cordova não teria sido capaz de se reconhecer se alguma pessoa cruel lhe entregasse um espelho.


Muitas pessoas perguntam-nos quando teremos um serviço para Vénus ou Marte. Sem duvida que a seu tempo virão, mas de resto as dificuldades são muito consideráveis. Há muita estática solar no espaço, para não falar nas várias camadas reflectoras por toda a parte.


Até mesmo as micro-ondas são detidas pela camada "Q" de Appleton a 100'000 km, como sabem. Enquanto não a pudermos penetrar, as acções da Interplanetária estarão seguras.


Bem, vejo que são quase 22 e é melhor que parta. Tenho que estar em New York à meia noite. Que tem isso? Oh, não. Vou de avião. Eu não viajo por fio! Compreendem, ajudei a inventar essa coisa!


Para mim, foguetes! Boa noite!



Viaje por fio!
(C) 1937 ARTHUR C. CLARKE